Domingo, 9 de Agosto de 2009

Um lugar algures

Existe um lugar que fica situado, como quase todos os lugares conhecidos como tal, algures. Esta e uma verdade aceite universalmente. Neste lugar, encontra-se uma caixa que guarda as ideias do mundo. Como uma versao moderna da Arca de Noe. Sao rascunhos simplificados, cliches que habitam o imaginario da cultura popular. Alguma verdade deverao conter estas ideias, ainda que exagerada. E o reconhecimento desta verdade que nos permite identificar os norte-americanos como pessoas que desconhecem que existe um mundo para la das fronteiras do seu pais, os mexicanos como homens de poncho e bigode fininho, que se sentam preguicosamente com grandes chapeus a sombra de arvores estranhas no deserto, os japoneses como bichos que apenas sabem funcionar em grupo, pecas ligadas a um sistema muito maior que nao permite o individualismo, os franceses como os europeus mais arrogantes e afectados do continente.



Nesta caixa, dois casais convivem com os franceses, os japoneses e norte-americanos mencionados. Um dos casais e portugues. O outro, brasileiro. O homem portugues (Manuel de sua graca, como nao podia deixar de ser), de feicoes boçais, bochechas rosadas do vinho tinto que bebe de manha a noite, pouco trabalha. Passa o dia a sombra de um chaparro (a semelhança do mexicano). De noite, adormece de cigarro ainda aceso na mao e a garrafa de vinho a escorregar-lhe pelos dedos, esgotado de bater na mulher. Esta, Maria de seu nome, tem um bigode mais farto do que o bigode do homem da mercearia e umas virilhas tao asperas que e surpreendente que as saias que usa nao se incendeiem quando a perna esquerda roça na perna direita.

Este casal dorme em camas separadas. O Manuel e a Maria so se deitam juntos para satisfazerem o apetite de lençois do marido, nos dias em que este nao esta desmaiado e pode reclamar o usufruto dos seus direitos de esposo. Esta e uma actividade que a nossa Maria cumpre com espirito de entrega, nunca sem antes se benzer e entregar o sacrificio a todos os anjos do Ceu.


Os vizinhos brasileiros, por seu lado, sao donos de uma energia prodigiosa. A semelhanca dos portugueses, nao a dirigem para o trabalho, mas festejam todo o dia e toda a noite sem darem o menor sinal de cansaco. A cachaca que bebem nao os derruba, parece antes alimentar de mais energia os corpos suados e quentes. Este casal, de nome impronunciavel, deita-se junto todas as noites e, mesmo depois de terem passado todo o dia em mutuas e gostosas traicoes (ela e provavelmente prostitura durante o dia, na casa que o Manuel frequenta, depois do almoco, em Braganca), levam a bom porto as suas maratonas no quarto, de luz acesa e samba a tocar no radio.

Depidos de qualquer referencia exterior, um incauto obserevador podera chegar a precipitada conclusao de que estes dois casais nada tem em comum. Sao tao diferentes quanto um ananas o e de uma banana. Ou Saramago de Lobo Antunes, se optarmos por uma referencia mais literaria, sendo o primeiro o ananas e o segundo a banana, claro. Talvez nem mesmo os casais objecto do nosso estudo tenham consciencia dos laços que os ligam, mas este facto nao torna menos verdadeiros os ditos lacos, e apenas demonstrativa de uma ignorancia pontual.
Os portugueses e os brasileiros tem em comum a sua Historia, a Historia dos seus paises que se cruzou ha quinhentos anos, quando Pedro Alvares Cabral navegou o Atlantico e desembarcou nas margens dessa distante terra que seria baptizada de Brasil. E bem verdade que estes quinhentos anos de convivencia nao aproximaram a essencia do que e a alma e cultura dos dois povos. Novamente o cliche: os portugueses fechados, soturnos, quadrados e os brasileiros alegres, de festa, abertos. A heranca historica encontra, ainda assim, formas de se revelar e fazer presente, para que nao seja esquecida. A ligacao mais obvia entre Portugal e o seu (agora) irmao Brasil e, como nao podia deixar de ser, a lingua. No Brasil fala-se um portugues mais suave e doce, de palavras e expressoes de uma criatividade hilariante. E uma variacao do nosso portugues, mas e portugues! Num pais de tamanho continental (como este e), tao longe, do lado de la do grande oceano, qualquer portugues pode descer do autocarro na mais remota aldeia do Para e comunicar na sua propria lingua. Os ajustes de pronuncia e atrapalhacao com algumas palavras, nao e diferente da cara de galinha confusa a ler "A Cartilha" que fariamos a tentar compreender os portugueses dos Açores ou da Madeira. E extraordinario!
As margens da Amazonia sao outro testemunho da passagem dos nossos antepassados por estas aguas. Em terra de floresta densa e natureza tao tropicalmente vigorosa, encontramos plantadas a beira-rio comunidades com nomes tao tradicionalmente portugueses como Santarem, Alter-dochao, Barcelos, Aveiro, Obidos ou Almeirim. Estes nomes (ou alguns deles), facilmente trazem ao pensamento a imagem de aldeias envelhecidas, onde os pratos boiam em azeite de producao caseira e todos se sentama mesa na cozinha em frente da lareira, em cima da qual um galo de loiça observa a refeiçao. Nunca, ate agora, Alter-do-Chao entrou neste imaginario como uma terra amazonica, de farinha de mandioca, arroz e feijao.
A Historia encontra formas de alcançar ate os mais distraidos e ensinar os ignorantes. Torna conhecidas as pontes que foram sendo construidas durante seculos. Sao pontes que nos definem. Ainda que possamos, como muitos filhos fazem em relacao aos seus pais, rebelar-nos contra a heranca que nos foi passada, nao podemos nunca esquece-la. E na minha opiniao, e um erro tentar faze-lo. Mas as opinioes valem o que valem - cada um tem a sua.

1 comentários:

  1. ...o Lobo Antunes não é banana...banana são os que acham que o Saramago é ananás...mas, são opiniões que valem o que valem, e esta é a minha! Um abraço e continuação de boa viagem Tia Tareca

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