Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

No 11 de Maio, de Manaus a Santarem

De novo no rio, depois das tres noites passadas em Manaus. A cidade e sufocante. Muito quente, demasiado, arriscaria dizer. Nestas condicoes, o corpo recusa-se a funcionar, nao responde aos estimulos do cerebro, fica entregue a um estado de profundo entropecimento. A moleza so e sacudida com a chegada da noite quando, apesar de tudo, a temperatura e mais fresca.
Manaus e habitada por mais de um milhao e meio de pessoas, uma verdadeira metropole amazonica. As ruas sao movimentadas, as estradas engarrafadas, as lojas vendem todos os produtos que poderiamos esperar encontrar em qualquer cidade, em qualquer parte do mundo. Enclausurada entre o rio e a floresta (para dentro da qual vai crescendo), Manaus e amazonia, mas no betao das suas ruas nao se sente como tal. A excepcao do calor, claro.
Os edificios sao um cruzamento entre a heranca colonial pitoresca e os novos edificios, geralmente feios, sujos, descaracterizados. O Teatro Manaus, uma mistura neoclassica e romantica do final do seculo XIX, e o orgulho da cidade. Por altura da nossa passagem por Manaus, os Franciscanos festejavam o centenario da sua presenca na regiao. O Teatro abriu as portas para duas noites de actuacoes gratis, opera e canto coral na sala principal. A sala sobe do chao ao tecto em tres niveis de camarotes, cujas colunas de sustentacao sao coroadas com escudos onde flutuam faixas com os nomes mais importantes da cultura europeia: Mozart, Goethe, entre outros. Do teatro cai um enorme lustre, as paredes cobertas de frescos e folhas de ouro, e tudo e veludo e tecidos adamascados, nas cadeiras, nos parapeitos onde apoiamos o queixo e disfrutamos do espectaculo.
As ruas sujas, o porto de contentores empilhados que bloqueiam a vista do rio, os hoteis e moteis de prostitutas e travestis (o Lisboa II oferece uma terceira hora gratis ao reservar um quarto por duas horas) contrastam com o faustoso centro-historico. O encanto de Manaus passa mais pela ideia de uma cidade no meio da amazonia, do que propriamente pela sua vivencia. Nao e um lugar desagradavel, mas tao pouco justifica mais do que uns poucos dias de estadia.

Voltamos ao rio. Desta feita o nosso barco ostenta o nome de "11 de Maio" no casco. Neste barco o caos e maior, sentimo-nos mais apertados, as casas de banho mais sujas, a comida nao incluida no bilhete de viagem. O rio e mais largo, viajamos mais longe das margens, a nossa volta uma imensidao de agua. Rapidamente, como tinha tambem acontecido no Fenix, grupos de conversam formam-se, distraem a monotona passagem do tempo. Nao que, no meu caso, sinta a necessidade de ser distraido dessa monotonia. Pelo contrario, agrada-me bastante. A viagem, o caminho, o movimento, e tao experiencia quando o destino onde se chega. Com tanto tempo para matar, a cabeca perde-se em pensamentos que nascem de lugares imprevistos. Vagueia entre o fruto que se experimentou no Peru e cujo nome nao conseguimos lembrar. A tentativa de adivinhar as horas pela posicao do sol no ceu. A organizacao da lista mental dos lugares por onde passamos, organizada por ordem de preferencia. As caras dos que fomos encontrando e reencontrando em lugares tao diferentes quanto Ushuaia e Medellin. Depois, a cabeca fica vazia, os pensamentos acabam. Nesse vazio, torna-se mais facil ouvir aquilo que nao e muito claro a maioria do tempo, asfixiado por tanto ruido. E a essencia. De nos. Do mundo. Do nosso lugar no mundo. Entao, a medida que o barco avanca, seguro e certo no rio largo, longe de tudo, largamos para tras peles que ja nao servem e crescemos em novas (e por vezes, inesperadas) direccoes.
O deck superior e o centro social do barco. Ai, os passageiros sentam-se em tronco nu ao sol, leem, escrevem em cadernos, escrevem cartas, jogam cartas, xadrez, domino. A musica toca alto. Das colunas do bar sai o inconfundivel ritmo do forro brasileiro. As batatas frita e bolachas do bar sao vendidos a precos inflacionados, mas a falta de alternativa, compramos a mesma. A cerveja fresca mata a sede e o calor. As latas acumulam-se sobre as mesas. As pessoas riem alto, falam em ingles, espanhol, portugues e num portunhol de estranhas misturas. Um homem cambaleia entre as mesas. Fala, mas as palavras nao saem, sao sons incompreensiveis, grunhidos. Toca nas cabecas daqueles por quem passa. Persegue o Vasco. Chama-lhe Jesus (de bracos abertos, como na cruz). Toca-lhe na barba. Nao percebemos se e doido, bebado, ou ambos. Moi-nos a paciencia.
Ao fundo, na area dos botes salva-vidas, um casal trabalha o alcool no corpo de olhos fechados. Ela sentada numa cadeira com as pernas apoiadas num dos botes. Ele deitado no chao debaixo dela. Usam o ar teatral das pecas cuja historia nunca chegamos verdadeiramente a compreender, aquele genero de silencios tao profundos que nao significam nada. Chamamos-lhes "Romeu e Julieta", uma historia de amor tropical vivida a bordo do imundo 11 de Maio.

Isto sim, e bom material!

Ultimas fotografias antes da segunda separacao de caminhos, no porto por alcancar. A vida a bordo do 11 de Maio e mais amigos de viagem. Brasileiros, polacos, alemaes, galegos...




Estado mais do que natural dos viajantes...O Romeu e a Julieta do 11 de Maio

Fachada lateral do Teatro Manaus.
A praca em frente ao teatro.
Em noite de Teatro, o kit camisa saiu da mochila pela terceira vez nesta viagem.



"Deus deu a vida para cada um cuidar da sua". Bom.

A varanda que transformamos no nosso quarto em Manaus.

A vida no porto de Juruti.


1 comentários:

  1. ola amigos....fiz um desses passeios pelo rio amazonas, fui a parintins conhecer o que de belo o festival tinha.. e realmente amei tudo que lá vi, e comi.. tem uma aurea muita boa..a ilha é linda.. na verdade uma cidade a beira de rios..muito calor... mais as noites são deliciosas para uma cervejinha com um bom bate papo nada formal...vale a pena...o brasil vale a pena..DANIEL ESCUDERO RIO DE JANEIRO

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