Viajo de noite de Santa Marta, na quentissima e humida costa caribenha, em direccao a Bogota D.C., a capital da Colombia. O ar condicionado esta ligado em niveis criminosos (uma obsessao nacional). De fato-de-banho e t'shirt, enfio-me no saco-cama (praticamente esquecido desde as altitudes bolivianas), so os olhos de fora a espreitar o Jackie Chan que na televisao da cabo de dois, tres, quatro, oito sem grande dificuldade.
Nao sei que esperar. Depois da fascinante Buenos Aires, todas as grandes cidades que visitei na america do sul se quedaram-se vergadas debaixo da (sempre) injusta comparacao. Uma cidade e uma cidade em qualquer lugar do mundo, um aglomerado urbano de velocidades alucinantes, onde se encontra o melhor e o pior que as sociedades humanas conseguem produzir. Cidades ha, que desenvolvem uma alma tao propria e unica que nao podem deixar de nos conquistar. Aquelas que falham encontrar uma identidade propria nunca deixam de ser mais do que a mera soma de partes que nao jogam bem no conjunto.
Que impressao deixara em mim Bogota?, pergunto-me enquanto procuro esquecer o frio nordico do autocarro e o Jackie desfaz mais uns quantos.
A primeira impressao que tenho ao chegar a cidade e que aqui o clima e decididamente filho da altitude (2600 metros): frio e ventoso. O ceu tao depressa esta limpo como se enche de nuvens que ameacam chover. A temperatura media e de 14 graus centigrados, fico a saber mais tarde. As ruas estao cheias de movimento, carros que se regem por leis que ainda nao consigo decifrar, pessoas que caminham apressadamente, um caos organizado alimentado pelos sete milhoes de habitantes da cidade. No terminal, um posto de turismo bem montado, onde me dao todas as informacoes que preciso para me poder movimentar sem problemas e chegar onde quero chegar.
Subir aos pequenos autocarros urbanos com a enorme mochila que carrego e algo que exige algum esforco e pericia. Galgo os degraus altos e tento nao parecer completamente parvo enquanto a transpirar e corado (como sempre, por tudo e por nada) tento soltar a mochila que ficou presa nas portas. Escolher o lugar tentando nao obrigar metade do autocaro a levantar-se a minha passagem e tenho em conta o campo de visao que me permite manter debaixo de olho a mochila, casca de caracol onde tenho tudo aquilo que me pertence. Acomodado, a senhora em quem roco a perna da-me as boas vindas a cidade. Nao traindo a imagem que fui construindo deste povo ate ao momento, e com uma enorme simpatia que me explica onde devo baixar, que ruas nao posso perder, as exposicoes, as festas nacionais obrigatorias entre aquelas que acontecem nesta epoca. A colombia recebe-me, mais uma vez, de bracos abertos e nao se deixa assustar pelo fato-de-banho pouco adequado ao clima mais fresco ou pelo suor que me escorre pelo pescoco.
O centro historico da cidade (conhecido como La Candelaria) desenvolve-se ao redor da Plaza Bolivar (absolutamente incontornavel este homem elevado a condicao de Deus-mito), praca enorme fechada pela Catedral Primada a um lado, o edificio do Capitolio, a camara municipal do lado oposto (Alcaldia Mayor) e o Palacio da Justica. Os pombos sao aqui aos milhares. Sobrevoam as pessoas que se sentam nos degraus do pedestal da estatua no centro da praca, sobre os policias que garantem a seguranca nesta area, sobre os noivos que posam para a fotografia em beijinhos repenicados de gosto duvidoso, sobre os vendedores ambulantes. Daqui partem as ruas que formam quarteiroes regulares. Os edificios entregam fachadas de traca antiga as ruas e placas sobre as portas de entrada indicam a casa onde Bolivar saltou da janela, a casa onde o movimento de libertacao ganhou forma, todas as casas onde viveram e morreram e conspiraram os protagonistas da historia nacional.
Aos domingos, caminhar pela carrera 7, fazendo o percurso da praca Bolivar em direccao ao Parque da independencia, e partilhar a estrada com familias que andam de bicicleta ou patinam ou passeiam os seus caes de todos os tamanhos e racas. A multidao de pessoas caminha por entre os tapetes de plastico estendidos no chao onde vendedores domingueiros expoem toda a especie de tralhas mais ou menos inuteis, mais ou menos interessantes: filmes e musica em cd's e dvd's piratas (numa permissividade impensavel na europa dos direitos de autor), puzzles de inteligencia feitos em arame, brincos, pulseiras, carteiras, couro, madeira, la, guarda-chuvas, roupa e sapatos em segunda-mao, cartazes de modelos e bandas e michael jackson, michael jackson, michael jackson, livros, discos vinyl, cordas, cordeis, linhas, botoes, cubos de Rubik, espetadas de fruta, radios grandes, radios pequenos, telefonias, bonecos para criancas, cadernos e canetas com ar de terem combatido na segunda guerra mundial, carcacas de animais embalsamados, revistas pornograficas vintage (curioso como o "porco" e "sujo", o segredo escondido debaixo do colchao, se transforma com o tempo num mais aceitavel testemunho da passagem deste e das mudancas sociais registadas, os padroes de beleza que definem uma epoca - as peitacas siliconadas dos anos noventa e principio deste seculo nada tem a ver com as formas mais contidas e triangulos pubicos selvagens das decadas anteriores), etc, etc, etc. Homens-estatua (na sua maioria indios e robots) absolutamente imoveis, esperam a moeda.
Na calle 11, visito parte da historia norte-americana atraves do olhar do Mr. America, Andy Warhol, numa exposicao bem montada no fabuloso museu do Banco de la republica. Ingresso gratis. Assim como gratis e a entrada no museu Botero que alberga incontaveis obras doadas pelo artista, sobretudo pintura (que nao me fascina tanto como a sua escultura, mas nao deixa de ser interessante). Ou, tambem, o museu de arte contemporanea e a sua classica coleccao onde tem lugar Picasso, Pissarro, Degas ou Bacon. Aqui respira-se cultura.
A cidade encontra-se rodeada por montes que estabelecem um horizonte verde. Servem como miradouros privilegiados. Do alto de Monserrate vejo a cidade ao longe, a esquadria formada pelas ruas, a praca de Bolivar, o centro-historico, a zona sul mais pobre, a zona norte de edificios modernos e ricos. Cheiro o ar de uma cidade com seculos de historia e muitas historias para contar. Bogota impoem-se como uma grande metropole latina, mas nao e fria ou arrogante: recebe-me de bracos abertos, mesmo quando chego suado e sujo.
Nao sei que esperar. Depois da fascinante Buenos Aires, todas as grandes cidades que visitei na america do sul se quedaram-se vergadas debaixo da (sempre) injusta comparacao. Uma cidade e uma cidade em qualquer lugar do mundo, um aglomerado urbano de velocidades alucinantes, onde se encontra o melhor e o pior que as sociedades humanas conseguem produzir. Cidades ha, que desenvolvem uma alma tao propria e unica que nao podem deixar de nos conquistar. Aquelas que falham encontrar uma identidade propria nunca deixam de ser mais do que a mera soma de partes que nao jogam bem no conjunto.
Que impressao deixara em mim Bogota?, pergunto-me enquanto procuro esquecer o frio nordico do autocarro e o Jackie desfaz mais uns quantos.
A primeira impressao que tenho ao chegar a cidade e que aqui o clima e decididamente filho da altitude (2600 metros): frio e ventoso. O ceu tao depressa esta limpo como se enche de nuvens que ameacam chover. A temperatura media e de 14 graus centigrados, fico a saber mais tarde. As ruas estao cheias de movimento, carros que se regem por leis que ainda nao consigo decifrar, pessoas que caminham apressadamente, um caos organizado alimentado pelos sete milhoes de habitantes da cidade. No terminal, um posto de turismo bem montado, onde me dao todas as informacoes que preciso para me poder movimentar sem problemas e chegar onde quero chegar.
Subir aos pequenos autocarros urbanos com a enorme mochila que carrego e algo que exige algum esforco e pericia. Galgo os degraus altos e tento nao parecer completamente parvo enquanto a transpirar e corado (como sempre, por tudo e por nada) tento soltar a mochila que ficou presa nas portas. Escolher o lugar tentando nao obrigar metade do autocaro a levantar-se a minha passagem e tenho em conta o campo de visao que me permite manter debaixo de olho a mochila, casca de caracol onde tenho tudo aquilo que me pertence. Acomodado, a senhora em quem roco a perna da-me as boas vindas a cidade. Nao traindo a imagem que fui construindo deste povo ate ao momento, e com uma enorme simpatia que me explica onde devo baixar, que ruas nao posso perder, as exposicoes, as festas nacionais obrigatorias entre aquelas que acontecem nesta epoca. A colombia recebe-me, mais uma vez, de bracos abertos e nao se deixa assustar pelo fato-de-banho pouco adequado ao clima mais fresco ou pelo suor que me escorre pelo pescoco.
O centro historico da cidade (conhecido como La Candelaria) desenvolve-se ao redor da Plaza Bolivar (absolutamente incontornavel este homem elevado a condicao de Deus-mito), praca enorme fechada pela Catedral Primada a um lado, o edificio do Capitolio, a camara municipal do lado oposto (Alcaldia Mayor) e o Palacio da Justica. Os pombos sao aqui aos milhares. Sobrevoam as pessoas que se sentam nos degraus do pedestal da estatua no centro da praca, sobre os policias que garantem a seguranca nesta area, sobre os noivos que posam para a fotografia em beijinhos repenicados de gosto duvidoso, sobre os vendedores ambulantes. Daqui partem as ruas que formam quarteiroes regulares. Os edificios entregam fachadas de traca antiga as ruas e placas sobre as portas de entrada indicam a casa onde Bolivar saltou da janela, a casa onde o movimento de libertacao ganhou forma, todas as casas onde viveram e morreram e conspiraram os protagonistas da historia nacional.
Aos domingos, caminhar pela carrera 7, fazendo o percurso da praca Bolivar em direccao ao Parque da independencia, e partilhar a estrada com familias que andam de bicicleta ou patinam ou passeiam os seus caes de todos os tamanhos e racas. A multidao de pessoas caminha por entre os tapetes de plastico estendidos no chao onde vendedores domingueiros expoem toda a especie de tralhas mais ou menos inuteis, mais ou menos interessantes: filmes e musica em cd's e dvd's piratas (numa permissividade impensavel na europa dos direitos de autor), puzzles de inteligencia feitos em arame, brincos, pulseiras, carteiras, couro, madeira, la, guarda-chuvas, roupa e sapatos em segunda-mao, cartazes de modelos e bandas e michael jackson, michael jackson, michael jackson, livros, discos vinyl, cordas, cordeis, linhas, botoes, cubos de Rubik, espetadas de fruta, radios grandes, radios pequenos, telefonias, bonecos para criancas, cadernos e canetas com ar de terem combatido na segunda guerra mundial, carcacas de animais embalsamados, revistas pornograficas vintage (curioso como o "porco" e "sujo", o segredo escondido debaixo do colchao, se transforma com o tempo num mais aceitavel testemunho da passagem deste e das mudancas sociais registadas, os padroes de beleza que definem uma epoca - as peitacas siliconadas dos anos noventa e principio deste seculo nada tem a ver com as formas mais contidas e triangulos pubicos selvagens das decadas anteriores), etc, etc, etc. Homens-estatua (na sua maioria indios e robots) absolutamente imoveis, esperam a moeda.
Na calle 11, visito parte da historia norte-americana atraves do olhar do Mr. America, Andy Warhol, numa exposicao bem montada no fabuloso museu do Banco de la republica. Ingresso gratis. Assim como gratis e a entrada no museu Botero que alberga incontaveis obras doadas pelo artista, sobretudo pintura (que nao me fascina tanto como a sua escultura, mas nao deixa de ser interessante). Ou, tambem, o museu de arte contemporanea e a sua classica coleccao onde tem lugar Picasso, Pissarro, Degas ou Bacon. Aqui respira-se cultura.
A cidade encontra-se rodeada por montes que estabelecem um horizonte verde. Servem como miradouros privilegiados. Do alto de Monserrate vejo a cidade ao longe, a esquadria formada pelas ruas, a praca de Bolivar, o centro-historico, a zona sul mais pobre, a zona norte de edificios modernos e ricos. Cheiro o ar de uma cidade com seculos de historia e muitas historias para contar. Bogota impoem-se como uma grande metropole latina, mas nao e fria ou arrogante: recebe-me de bracos abertos, mesmo quando chego suado e sujo.
Na cozinha deste hostel quem sabe da arte dos tachos sao os homens!
Procura-se.
Relacoes internacionais entre os Estados Unidos e Portugal.
Em preparacao mental para a iguaria do dia: formigas (hormigas) fritas. .JPG)

A Praca Bolivar.
A Catedral.
Camara Municipal.

Visto da praca Bolivar, ao fundo, o miradouro de Monserrate. Um dos picos que rodeiam a cidade e que lhe dao este ar verde.



Por toda a Colombia podemos encontrar estas cabines telefonicas humanas. Gritam os tarifarios e levantam cartazes com os precos escritos para reforcar a ideia. Distribuem telemoveis a quem quiser falar. Obviamente que presos a correntes. Os telemoveis, digo.
Visto da praca Bolivar, ao fundo, o miradouro de Monserrate. Um dos picos que rodeiam a cidade e que lhe dao este ar verde.
A vista de Monserrate.
Com a Beth no ultimo dia que passamos juntos antes de voltar para os Estados Unidos e com o Antoine o frances estudante de Engenharia Civil no Panama.

Com o Antoine e a Cecilia (Argentina), pelas ruas mais artisticas da Candelaria.
mike tinhas razao!!! mto bom o filme...fartei me de rir!
ResponderEliminarum grd bj. soube me mm bem a nossa converseta no outro dia
beijinhos grandes
Eu estava procurando as Cidades Gêmeas de Letícia - Iquitos - Tabatinga e encontrei esse seu blog maravilhoso, divertido que nos descontrai. Uma viagem em casa, parabéns!
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