quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Welcome

A comunidade Portuguesa, que se encontra no hemisferio sul, deseja as boas vindas e boas chegadas a Portugal a todos os voluntarios da AASUL vindos de Cabo Verde no passado dia 31 de Agosto.

Entre eles encontram-se a minha irma e, ao que parece, um cunhado em potencia.

Espero que tenham todos gostado, orgulhosos, de expectativas arduamente desafiadas, e com uma linha de fazer inveja à Cinha Jardim (que saudades...).

Abraços

Lojistas

A quantidade de pessoas que perderam uma oportunidade de negócio por virem ter comigo, uma vez estabelecido o contacto visual, é impressionante!

A todo o possível lojista que leia este blog: Nao venha ter comigo até que eu tenha, de facto, alguma pergunta a fazer.

Nao sei se resulta com o resto do mundo, se faço parte de uma minoria, ou o unico nessa batalha. Mas em 6 meses de passagem por muito comercio de rua, e nao so, saí sempre de maos a abanar, irritado com a insistencia e, tambem, pela necessidade algo ridicula de falarem comigo em Ingles. Nao sou nativo a falar Espanhol, mas bolas, tao pouco sou pessimo a falar Portugues...

Moral da historia, nunca correr atras do gringo, desesperado por um negocio economicamente feliz. Ja dizia Sun-Tzu (noutro contexto), nao atacar o inimigo sem antes o conhecer. E para o conhecer, terei de me conhecer a mim proprio...

E assim que eu vejo a situaçao mal entro numa loja ou feira; um alvo. E, por isso, dou logo em retirada correndo de bandeira branca invisível.

Ausência

A vida de dois tipos na América do sul tem muito que se lhe diga. Fora acessos de loucura por causa do que vemos ou fazemos, a verdade e que, e acho que falo pelos dois, a nossa realidade passou a ser esta. Nao que as coisas se tornem menos interessantes ou que a magia do que vemos se perca nas incontaveis horas de passeio, tanto a pe como de autocarro.

Esta é a vida que ando a levar pelo sul, tranquilo, passo por passo, sem pressas ou deslumbramentos cansativos que estoiram qualquer um e o deixam sem vontade de mais. Nao ha turismo que resista a esse tipo de vida. Assim me encontro: dando ao dia a dia uma nova oportunidade sem achar que estou mal situado ou fora de padrao. E aqui estou (estamos) encarando o quotidiano com a maior das naturalidades. É outra das riquezas ganhas em tanto tempo de viagem. Nada e estranho (ou quase nada) e, de minuto a minuto e de hora a hora, cada um percorre o seu destino com uma curiosidade inquebravel.

Às diferenças prepara-se cada um a sua maneira, mas a ultima que me tocou foi uma maravilha.
Uma pessoa veio, de nome Joana, e com ela a diferença elevou-se. Impossível de nao notar no que fazia, no que dizia ou propuha. Agora faz parte do itinerario uma pessoa a mais dos meus proprios planos. Como foi tao bom o surgimento de tal diferença. Deu para re-visitar a grande Buenos Aires, conhecer a sofisticada cidade de Rosario, deixar-se maravilhar pela potencia e espectacular queda de agua no Iguaçu e aproveitar algumas das extensoes de areia mais famosas no planeta.

Pacote ideal para quem nao reage bem a surpresas, mas que esperava por esta vinda tao ansiosamente. Foram dois meses de espera. A notícia foi dada ha mais de dois meses e aquilo que nos separava por um oceano de distancia, foi posto em pratica, pela estrada fora, em autocarros de quarenta e poucas horas, com direito a "bus cama", e horas infindaveis de leitura: Mafalda (Quino).

Tres semanas (quase) de novidades, caminhadas, musicais, cinema, enfim, toda uma oferta cultural que sabe tao bem ao ser partilhada. Impressionante como ha coisas que nao se esquecem. 6 meses nunca serao suficientes para certo tipo de esquecimentos e a distancia que o tempo provocou acabou por o provar.

A uma pergunta sugestiva, raramente ouvi de resposta um nao. Os horarios estavam em unissono, a vontade igualmente. Eu em mostrar o que ja tinha visto, orgulhoso do meu mapa mental e sentido de orientaçao dentro da cidade de Buenos Aires. Satisfeito no que ouvia dos comentarios da Joana. Orgulhoso de experimentar o meu Castellano a sua frente, confiante nos pedidos e duvidas perguntadas a um alheio Porteño. Satisfeito com a logística, e com o modo de controle sobre as coisas mais praticas, reflexo da naturalidade da vida por ca.

Parece irritante, impossível, mas tudo correu bem! Poderia ter sido melhor, ou pior; foi o que merecemos, o que procuramos, o que nos calhou. Em 3 semanas percebeu bastante bem que nao se pode desejar o impossível. Sendo assim aproveita-se o que nos e dado. Nao sabíamos como correria. Feita a retrospectiva, saiu ainda melhor do que se esperava.

Nao viemos mudar o mundo, mas definitivamente saímos com perpectivas maiores e visões mais amplas (palavras do companheiro). Estas pequenas diferenças de rota de grande conteudo resultam na certeza de que a decisao foi certa. Que nada muda nao e totalmente certo, mas que se acrescentam algumas coisas, talvez...

Boa surpresa, optimo acrescento, maravilhosa companhia, bendita ausência (a minha, claro).

sábado, 29 de Agosto de 2009

Sacrificios

O limite encontra-se tao longe que estranhamente provoca tonturas. Continua em frente
(horizonte?)
sim, pelo horizonte. Cortado por ilhas e corpos (sempre corpos) que as ondas lambem, onde as ondas vem rebentar com a violencia que e caracteristica das ondas. Pulverizam o ar com uma camada de gotas salgadas que sobem pelo areal e ficam ali, como uma nuvem, no ar. Sao... refrescantes. Depois continua para cima, ascende em relevos saidos de postais retocados. Montagens? Podia ser. Os predios espreitam por cima das grades, por entre os seguranças e é tudo tao privado e tao segurança. É a diplomacia urbana em acção, fronteiras fechadas, intransponiveis. Aqui nao ha a possibilidade de obter um visto. Negado a partida. Nao, nao, nao. Nao ha possibiloidade. Estas fortalezas alimentam sonhos que podem ser sonhados (legitimo), mas a sua concretização é outra historia. A insensibilidade do mundo que vive habituado a estas realidades. Alem do mais, nao nos escondemos todos atras de grades, fechados em muros? Isso e outra historia.
Aqui é o mar e é a liberdade. Tanta liberdade chega a ser opressiva - como nao sentir o mundo girar, o eixo do mundo alterar-se!
Nos primeiros dias chove.
Chuva?
Chuva. Nada ha a fazer. Ate ele la em cima, de braços abertos num abraço paternal, nem ele consegue escapar da capa de nuvens que o esconde. As nuvens envolvem tudo de cinzento e de tectos falsos que galgam as montanhas da montagem divina. Conferem um dramatismo invernal inesperado. A lagoa cinzenta . Do outro lado, a praia vazia.
Vazia? (Choque!)
Praticamente, juro. Cruzo o peito em jeito de confirmação. Que caia redondo se nao for verdade . Nada acontece claro, porque e sempre verdade. Ou quase sempre. Mas isso e outra historia. Afinal, quem nao se esconde atras de uma mentira? Mas isso, isso e outra historia, nao esta.
Continua.
A praia quase vazia. O Cristo perdido nas alturas, como se os infernos se evaporassem da lagoa e com garras invejosas o mantivessem longe de todos. Mas Cristo ama a cidade e o sol vem. O sol reclama o seu imperio. Soam as trompetas e os subditos acorrem em adoração ao Deus universal, Deus de todos os deuses. Oferecem o corpo como sacrificio, expoem-no. O calçadao enche-se de corridas, caminhadas, bicicletas que continuam
Ah quanta liberdade!,
continuam por Copacabana e Ipanema, a adoravel tranquilidade burguesa do Leblon. A violencia existe, mas para lá.
Para la?
Ali, depois.
Entendo.
Nao sei se entendemos, espreitamos sim, meros observadores. Aqui misturamo-nos com as senhoras coquetes que passeiam os seus lulus em frente ao shopping, em frente da loja de marca, as maos penduradas nos pulsos. Seguimos com a procissao.
Outra vez o deus Sol?
Quem mais?
Seguimos a procissao e o mar rejubila e quebra-se em ondas mais violentas, a corrente puxa mais, mais feliz. Reclama dos corpos, mais e mais e mais corpos agora, reclama por que e mar e e o que faz. A energia de tudo, a perfeiçao do mundo. Abdominais perfeitos. Braços perfeitos. Pernas perfeitamente torneadas. Bikinis ilegais. Todos, todos em sacrificio!
A areia enche-se de pegadas, toalhas, bolas de futebol, ronaldinhos anonimos, vendedores de açai, queijo derretido, bikinis, empadas, cremes, amendoins, tudo.
Olha que coisa mais linda!
Todos movem-se ao som de Jobim de talento que nao existe mais (acreditas mesmo nisso?).
Os seus versos atravessam tudo e atravessam todos, a selva urbana, a paisagem natural linda. Linda, linda!
Acçoes . Estender a toalha. Deitar. Quanto sacrificio! Tanta beleza, liberdade que vai ate ao horizonte e continua para cima. Nao ha como o coraçao nao falhar, o batimento cardiaco irregular, prostrado por tanta paixao.

domingo, 23 de Agosto de 2009

Ah Bahia!

Das alturas, Joel pesquisa as ruas. Os olhos mergulham nos decotes das baianas que passam. Joel da-me cotoveladas. A cara, ainda carregada de borbulhas adolescentes, ri de entusiasmo hormonal. Sento-me com ele e ficamos a janela em descarada contemplação.
As pessoas caminham nas ruas empedradas de Historia e o caminhar ganha um balanço irregular - o balanço doce de Salvador. O gingar ao subir as ladeiras ingremes. O cuidado ao descer na volta, os braços abertos e os pes a travar os chinelos que escorregam nas pedras polidas por muitos anos. Estas ruas têm a cultura da mistura de culturas. É a irreverencia das pretas baianas, dos folhos coloridos em contraste com a pele escura, saias e saiotes, verdes encarnados azuis amarelos brancos de ferir os olhos, cores fortes fortes fortes. Fartas mulheres, fartos braços, fartas pernas que dançam ao som dos berimbaus, o som da batida dos tambores das rodas de caporeira, do suor que salpica dos troncos musculados, os movimentos tesos de força, o suor que cai no chao e escorre pela calçada branca. Debaixo das saias, as pernas mexem-se ao som do maculelê, do cadomblê e dos orixás, nessa fé herdeira dos escravos pagãos do Pelourinho (Pelô, para os mais intimos) e dos europeus colonizadores, cristãos sobretudo, que espalharam as suas religiões em sumptuosas igrejas de talhas douradas e santos divinizados. Mexem-se com o Elevador Lacerda que sobe e desce em Arte Deco e liga a cidade alta e a cidade baixa a todas as horas que somam um dia. Ao som do Mercado Modelo e do seu intenso comercio. Das ondas que rebentam nas praias que vêm ver o por do sol na Baia de Todos os Santos. As praias que vão da Igreja do Bonfim até à Barra, onde se erguem os fortes e farois da cidade, mas depois do farol ha mais praia, praia até mais não, é Itapuã onde é bom "passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã". Os pintores que preenchem telas em pinceladas pouco originais, mas ainda assim tão apelativas. As filmagens de mini-series, os cabos que passam, as camaras que passam, as equipas que passam, a produção que encontra nestes cenários a evocação de outros seculos. As pernas das baianas dançam debaixo das saias, na antecipação das noites de terça-feira, a noite em que tudo e possivel, noites de Olodum e Ilê Aiyê e loucura hedonistica. Movem-se com os raspadores que raspam as ervas que crescem nos passeios. Os pedintes que forçam olhos tristes e lagrimas que caem de forma estudada, seguem os turistas que se ajoelham para fotografar uma imagem que so foi fotografada umas outras milhões de vezes, numa diferença de riquezas que nao deixa indiferente. É o Jorge Amado à conversa com Dona Flor à porta da Igreja de S. Francisco. As baianas dançam porque em Salvador da Bahia tudo vibra numa musicalidade que permeia os dias e as noites e nao descansa. Contagiante! As baianas dançam porque sabem que nao podem não o fazer, não há como resitir.

Joel bate o pe. Tambem ele nao resiste. Dá-me uma cotovelada e deixa cair o olhar que se aninha em mais um decote saltitante.
Ah Bahia!
Bahia, Bahia, Bahia, Bahia, Bahia...


Viva os amigos com maquinas que ainda trabalham e permitem mandar um cheirinho da viagem até casa!

As baianas do Terreiro de Jesus, pleno centro do Pelourinho

A terça-feira a festa é de loucura. O video e demasiado pesado para carregar, mas garanto o suor e calor desta noite!

Israelitas donos de pizzarias e vinhas; Ingleses que sem trabalho por causa da crise resolvem nao ficar deprimidos; mais israelitas, cientistas na area do cancro da pele em Boston, com um phd em Harvard debaixo do braço e uma jovialidade aos trinta e cinco anos que deixa arrumados muitos de nós com vintes; sociologos alemães, australianos das artes, brasileiros da capoeira - nos nossos dias o mundo e pequeno, mas cabem nele pessoas tao diferentes e que vale mesmo a pena ouvir, conhecer!

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Em viagem

Quem sao?
Sao hippies de rastas e de Bob Marley, que financiam o caminho ate ao proximo destino com a venda de artesanato nas ruas; sao tambem meninos ricos que recebem dos pais o dinheiro para o seu "gap year" no caos da America Latina; sao mulheres de fartos sovacos e homens de sobrancelhas depiladas; pessoas de planos decididos e trancados e aqueles de entregas mais espontaneas; sao drogas e bebedeira e drogas outra vez depois da ressaca e sao aqueles que optam por modos de vida menos toxicos; sao contactos promiscuos que acrescentam mais uma bandeira ao historial das conquistas e são rigidas politicas de nao-contacto e manutençao do casto espaço vital; são pessoas que comem nos mercados populares da Bolivia e sobrevivem e aqueles que mesmo com agua engarrafada passam tres dias atacados por caganeiras; sao gays e lesbicas e heterossexuais e todos os que estao confusos; os homofobicos e os que nao querem saber da cama alheia; sao pessoas que percorrem os museus com entusiasmo e sao aqueles que preferem a cultura da rua; uns usam sorrisos rasgados, outros parecem nao compreender o conceito de simpatia; sao forretas que sofrem com cada centimo gasto e aqueles que gastam despreocupadamente sem fazer contas a vida; sao corpos que nao sentem a agua do chuveiro durante uma semana e corpos que nao aguentam a humidade tropical e se banham duas vezes num dia; sao ruinas magnificas ou pedregulhos sem graça; sao pessoas interessadas no que e diferente e pessoas que viajam em busca da confirmação da inferioridade de tudo o que nao e a sua normalidade; sao barbas que crescem e crescem e barbas que nao passam da intensão.

A maioria das pessoas com quem me tenho cruzado, na tradução da magnifica complexidade e diversidade humana, sao todos estes viajantes num só - e todos os outros que ficaram de fora das linhas acima; a porta das possibilidades escancarada, experimentar, conhecer, brincar com o que e obvio e provar do nao-obvio.

Viajar sozinho e jogar com a possibilidade de estar sozinho. Assim como nem tudo o que sobe necessariamente volta a descer, ou ser grande nao e sinonimo de estar destinado a grandes feitos, tambem viajar sozinho nao significa necessariamente estar sozinho. Comer a uma mesa sem companhia do outro lado. Passear sem ter com quem comentar os pormenores. Acordar e saber que todo o tempo e nosso, o nosso ritmo. Esta possibilidade nao e mais do que uma escolha. Quando os dias sao passados desta forma, sao vividos na tranquila consciencia de que assim e porque assim quisemos que fosse. Porque precisavamos. Porque e bom o teste de extremos. Porque estamos numa fase de nao-pessoas. Porque sim, sem explicações.

No mundo dos hostels baratos (frequentados sobretudo por jovens a viajar com apertados orçamentos), os quartos sao camaratas partilhadas, as casas-de-banho partilhadas, a cozinha de tachos e panelas e talheres partilhados, computadores partilhados (geralmente com fila de espera, o que propícia o ajuntamento de pessoas). Os hostels obrigam ao contacto com pessoas. A maioria, pessoas de conversa facil, que procuram companhia. So nao sorri, ou inicia uma conversa quem nao quer. So nao investe tempo na descoberta dos pontos que ligam e daqueles que irremediavelmente separam aqueles que nao estao interessados. So nao encontra companhia para passear pelas ruas das cidades que ainda nao se conhecem, aqueles que escolhem nao o fazer. Viajar sozinho tem muito pouco de solitário.

Mas nao sao apenas as novas pessoas que entram na nossa existencia em numeros e frequencia maniacas, que afastam o "um" dos nossos dias. Sao tambem os reecontros, esse acontecimento profundamente enraizado no ADN das grandes viagens. Ha encontros que acontecem e nao podemos acreditar que acontecem, mas acontecem mesmo! A mesma hora, no mesmo dia, na mesma rua da mesma cidade, duas pessoas voltam a cruzar-se. Conheceram-se em Ushuaia e tres meses depois estao instalados no mesmo quarto na Colombia. Viajam no mesmo barco na amazonia e dizem adeus, sem saberem que voltarão a ter tempo juntos, num autocarro que liga duas pequenas aldeias no nordeste brasileiro - as mesmas aldeias, o mesmo autocarro, a mesma hora. E voltar a superficie, depois do primeiro mergulho no mar de Salvador da Bahia, e deparar com caras conhecidas estendidas na areia. E como das outras vezes, é esfregar os olhos incredulo, esticar os braços, rir deste mundo de coincidencias tao boas e perceber que o "um" tem sempre um dois, tres, quatro, encontros que desafiam a imaginação e a logica das probabilidades. Os dados são lançados. Somam sete.

sábado, 15 de Agosto de 2009

Do bordel

"O Brasil esta virando bordel de puta pobre".

A senhorita Gilda caminha descalça e desenha circulos no chão com os seus movimentos. A cada passo seu, a madeira estala. O som sai da sala e propaga-se pelo corredor fora. É um corredor longo, como o são todos os corredores das casas antigas. Alguns enganam e escondem uma segunda secção, depois de uma esquina. São ainda maiores do que a partida poderiamos supor. Este nao e desses corredores nao, termina na cozinha ao fundo, sem esquinas ou cotovelos. De um lado e do outro, portas altissimas seguem-se umas as outras e dão entrada em quartos, quartinhos, salas e salinhas.

"O maior filho da puta é esse cara aí, esse Lula"!

Com o entusiasmo que a toma de assalto ao falar, Gilda esquece-se do cigarro que tem nos dedos e este vai desaparecendo em cinza pisada aos seus pés. Fala com a voz grossa que a caracteriza. A lingua, meio enrolada, dá a impressão de estar a trabalhar estimulada pelo alcool. A mão que nao segura cigarro nenhum esta pousada na anca que é seca e nada tem das curvas do imaginario do corpo brasileiro. Na cara, duas verrugas (uma debaixo do queixo e outra entre o nariz e a boca) parecem existir para confirmar a sua condição de bruxa má. As primeiras frases que ouvi da boca de Gilda foram de uma simpatia duvidosa, palavras largadas por entre o esgar que a sua boca desenha perpetuamente. "Sou má, sou má mesmo! Nao quero homem, nao chega perto nao que eu corto esse teu penduricalho ai, zas!" Aponta para as minhas calças e num instinto de protecção escondo-me atrás da mesa da cozinha. "Turistas! Eu conheço voces todos, conheço bem! Turista e muito abusado. Especialmente esses israelitas que aparecem ai. Ai povo insuportavel!".

Este teatro bem montado leva a uma primeira impressao negativa, traduzida por antipatia pela personagem. Com o tempo, apercebemo-nos do sentido comico de Gilda. Fala um francês perfeito e compreende linguas tão surpreendentes como hebreu, japonês ou alemão. As frases que diz sao de uma vulgaridade desconcertante, que a maioria das mulheres nao poderia usar sem se tornar ela propria vulgar. No entanto, a coerencia das coisas que diz e os saltos entre os diversos idiomas (com uma preferencia pelo frances, sempre chique), garantem-lhe uma personalidade excentrica e nunca, mas nunca vulgar, em todos os vários sentidos carregados por esta palavra.

Muitas seriam as razões que poderiam levar a não gostar da senhorita Gilda. A verdade é que, contra todos os esforços da sua parte, Gilda surge perante os perseverantes como uma mulher interessante e inteligente, uma companhia de humor acido nas noites quentes do Brasil.

De dedos espetados no ar, como se esfaqueasse um inimigo invisivel, continua o seu ataque a Lula, "o filho da puta comprador de votos". Lula dá o peixe, mas não ensina a pescar. Entrega dinheiro na forma de subsidios e promove, na sua opiniao, uma classe de inuteis que fica em casa a fazer filhos para receber dinheiro do Governo Federal. O Governo, dispõe do dinheiro para subsidios porque aumentou os impostos a classe media. Conclusão: "metade do Brasil anda a trabalhar para a outra metade ficar fodendo". No meio da sala, move as ancas para a frente e para trás, para dar mais enfase a ideia, como se corresse o risco de nao estar a ser bem entendida.

Digo-lhe que a sua opiniao e original e rara no mar de consensualidade positiva que existe em relação aos meritos de Lula como presidente. "Isso e porque voce fala com o pobre, o pobre comprado. Vem falar comigo, vai falar com as pessoas que tem educaçao e a gente te vai dizer: Lula e um comprador de votos". Gilda abana a cabeça em profunda desilusão pelo estado em que o seu pais se encontra.

Através das janelas abertas, vejo o predio da frente. A fachada coberta de azulejos, ao estilo portugues. De cotovelos apoiados no parapeito, duas raparigas escutam Gilda. Observam os circulos que ela desenha no chão de madeira e os hospedes que a escutam. Parecem confortaveis no seu papel de observadoras. Imagino que o façam com frequencia, escutar as palestras da dona da pensão do predio da frente e o mar de turistas que vem e vai. Depois da hora da novela, claro. Saio para a varanda. Uma das raparigas e morena, de braços longos e cabelos longos e lisos. Cara longa, como um cavalo. Os ossos da cara são protuberantes e indicam uma magreza excessiva. A outra rapariga, tem apenas um soutien a cobrir-lhe o corpo, ou a metade visivel deste. Parece procurar compensar a magreza da irma, prima, tia, amiga, que afectos as unirao?, com os seus braços gordos, duplo queixo, peito abundante que sai da janela e parece ele tambem espreitar para a rua.

Olho-as de frente. A gorda segreda algo ao ouvido da magra, de gordos dedos em concha para esconder as palavras. Dão um passo atras em direcçao ao escuro do quarto. Fecham as portadas da janela, aparentemente incomodadas pela inversão dos papeis observador-observado. Nao tenho a oportunidade de lhes perguntar acerca dos assuntos que inflamam Gilda, o bordel mal-governado que parece ser o seu país, uma imensidão de chulos abusadores e prostitutas mal-amadas. Nao tenho oportunidade de lhes perguntar nada e fico a pensar que tipo de relação as une. Irmas, primas, amigas. No fim esqueço-as e decido que na verdade nao interessa.

As ultimas fotografias tiradas antes da maquina ter resolvido nao trabalhar mais.

Estas sao todas de Alter-do-Chão.


Praça central de Alter.

A praia que nesta altura do ano esta inundada. Todas estas cabanas e arvores estao numa lingua de areia perfeitamente transitavel quando as aguas estao baixas.